Benjamin Steinbruch, presidente da Fiesp e da CSN

Benjamin Steinbruch, presidente da Fiesp e da CSN

“Os empresários ainda não enxergam o novo Brasil”Ainda garoto, antes mesmo de completar 18 anos, Benjamin Steinbruch deu os primeiros passos na vida empresarial, atuando ao lado do pai, o lendário Mendel Steinbruch, do grupo Vicunha.

Por Leonardo Attuch e Hugo Cilo

“Eu mais atrapalhava do que trabalhava”, diz ele. Quarenta anos depois, já dono da Companhia Siderúrgica Nacional e no exercício da presidência da Federação das Indústrias de São Paulo, Benjamin afirma que o momento da economia brasileira é inédito. 

Tão inédito que nunca foi vivido por nenhum empresário nacional. Ele aposta que o Brasil já decolou para um longo ciclo de desenvolvimento, que pode durar várias décadas. 

Nesta entrevista, ele também falou do plano de dividir a CSN em cinco novas empresas, que podem ter ações na BM&FBovespa. E alertou para o risco de desnacionalização de setores estratégicos da economia, como a mineração. Leia a seguir:
Em vídeo, Steinbruch dá mais detalhes sobre suas apostas para o Brasil

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 DINHEIRO – Como o sr. enxerga a economia brasileira? 

BENJAMIN STEINBRUCH O momento é excepcional, com uma convergência de fatores positivos internos e externos. Do ponto de vista externo, o Brasil lucra por ser um grande produtor de matérias-primas, com a China comprando tudo o que se produz no mundo. Em relação ao mercado interno, com a inclusão de 30 milhões de consumidores que vieram da pobreza, junto com 20 milhões de pessoas assistidas por programas sociais, formamos uma massa de consumidores que equivale a uma Espanha ou seis vezes Portugal. Essa gente entrou no mercado comprando seu primeiro bem. A primeira geladeira, o primeiro carro, a primeira televisão. E o crédito fez uma espiral positiva na economia. Mais consumo, mais emprego, mais renda e, de novo, mais consumo. 
 
DINHEIRO – Uma situação inédita?

STEINBRUCHO Brasil se equilibrou pela primeira vez em torno de si mesmo. Eu nunca tinha visto o Brasil se viabilizar para si e não para terceiros. Não para a exportação ou em função de financiamentos do Fundo Monetário Internacional ou do Banco Mundial. Foi um movimento contrário. Hoje, o País é o primeiro a comparecer como doador do FMI.
 
DINHEIRO – O sr. enxerga algum risco? 

STEINBRUCH Não. O Brasil é um dos poucos países hoje que podem pretender se viabilizar economicamente no médio e longo prazo. É claro que vai depender da gente. Mas acho que está tudo sendo feito para que atinjamos o objetivo.
 
DINHEIRO – A taxa de juros ainda não é uma distorção? Especialmente agora que se constata que a inflação continua baixa?

STEINBRUCHEu critico a política de juros há muito tempo. Claro que todos nós queremos ter a inflação controlada. Por outro lado, temos que ter um pouco mais de ousadia e coragem. O Brasil nada mais é que um povo ávido por consumo, numa situação de equilíbrio macroeconômico. Devíamos dar a chance de o Brasil crescer um pouco mais. 
 
 
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“A China já comprou a África e agora quer o Brasil. É preciso ter cuidado”
Hu Jintao, presidente da China
 
 
DINHEIRO – Por que isso não acontece?

STEINBRUCHOlha, essa é a primeira vez que a minha geração tem a possibilidade de saber o que é crescimento. Hoje, tenho 57 anos. E comecei a trabalhar com meu pai antes mesmo dos 18 anos. Nunca vi um cenário como o atual.
 
DINHEIRO – O crescimento no Brasil pode durar dez ou 20 anos?

STEINBRUCHSim. A gente tem todas as condições para isso. Se nós vamos aproveitar ou não, não sabemos. Sempre ouvi que o Brasil era o país do futuro. Isso é passado. Hoje, o Brasil é o país do presente. Não tem como dizer o contrário. Está todo mundo vindo para cá. Todo mundo querendo investir. Só que muitos empresários brasileiros ainda não acordaram para a dimensão do novo Brasil.
 
DINHEIRO – O nível de câmbio atual é um problema?

STEINBRUCHA gente tem que tomar cuidado. Todos sabem da dificuldade de se exportar com um câmbio valorizado. O País está se alijando das exportações e facilitando muito a importação. E, como o Brasil tem um mercado interno forte, as empresas de fora jogam aqui todos os seus excessos de produto, o que pode desestruturar todo o nosso setor produtivo.
 
DINHEIRO – Mas mexer na política de câmbio não seria ruim para a imagem do Brasil?

STEINBRUCH Não é preciso mexer no câmbio. Se baixássemos os juros, muito provavelmente a moeda se desvalorizaria. Existem dois tipos de capital: o especulativo, que busca rendimento de curto prazo, e o de investimento, que gera emprego. Esse último, não tem problema. Pode deixar entrar à vontade. O outro é problemático.
 
DINHEIRO – O real forte não ajuda a combater a inflação?

STEINBRUCHNão há esse risco. Com o excesso de oferta e a ociosidade que existe no mundo, a qualquer momento se importa qualquer coisa.
 
 
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“A CSN pode ser dividida em cinco novas empresas”
Usina da CSN
 
 
DINHEIRO – Como o sr. vê os gargalos da indústria? 

STEINBRUCH A indústria ainda não está no limite. Não temos nenhum setor que atingiu a plena capacidade.
 
DINHEIRO – O nível de investimento atual é adequado para a economia brasileira?

STEINBRUCH O País vai ter que investir mais. Nós, empresários, ainda não temos a exata noção do que é o novo Brasil. Ainda não aprendemos a conviver com essa situação de forte crescimento. Somos novatos nesse tipo de economia. E precisamos de investimentos massivos em todas as áreas.
 
DINHEIRO – E o papel do BNDES, que tem sofrido tantas críticas?

STEINBRUCH O Brasil, para ser forte, para ser líder e para ser como a gente gostaria que fosse, precisa ter empresas fortes. Para ter empresas fortes, nós precisamos ter o suporte do governo. Conversei isso com o presidente Lula e temos o mesmo pensamento. Nesse sentido, o BNDES tem sido fundamental para a internacionalização das empresas e o Luciano Coutinho só merece aplausos pelo trabalho que tem feito.
 
DINHEIRO – Tem havido repasses muito grandes do Tesouro ao BNDES, um dinheiro que, de certa forma, é subsidiado. Há favorecimento excessivo?

STEINBRUCHO setor empresarial tem que ser favorecido, para  que as empresas possam concorrer em situação igual. Hoje, em nível internacional, o investimento no Brasil é caro. Os juros aqui são desproporcionais. Eu não teria vergonha em falar de subsídio para investimento. Mesmo porque é uma necessidade. O investimento traz emprego e renda. Então, a gente tem que cultivar o investimento. E o BNDES é a instituição que tem esse papel. Tudo o que for feito para atrair investimento, a gente tem que cultivar, não criticar. Na verdade, hoje só o BNDES está fazendo isso. Em outros países, há vários bancos que exercem esse papel. 
 
DINHEIRO – Talvez se a taxa de juros fosse menor, o papel do BNDES não fosse tão relevante, concorda?

STEINBRUCHExiste uma distorção do custo financeiro aqui, tanto de capital de giro quanto de investimento. O governo, então, deve favorecer o investimento com os instrumentos que possui. 
 
 
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“O Brasil incluiu 50 milhões de pessoas no mercado de consumo. É uma Espanha”
Consumidores das classes C e D no Brasil
 
 
DINHEIRO – Mas não existe um custo fiscal com essa taxa de juros subsidiada? 

STEINBRUCH Não existe custo fiscal. É investimento. Custo fiscal é o que tem sido feito na Europa e nos EUA para levantar a economia. Isso é custo fiscal. Aqui, é estímulo ao crescimento. 
 
DINHEIRO – E a infraestrutura? Vai dar tempo de fazer todos os investimentos necessários antes da Copa e da Rio-2016?

STEINBRUCH O Brasil é um país fantástico e há tudo por fazer. Onde você olha, tem necessidade de investimento. Isso é ótimo. Na Europa e nos Estados Unidos, já não há onde colocar o dinheiro. Acho que conseguiremos fazer tudo a tempo. Ainda sofremos com a questão da burocracia, que é uma coisa que vem de muito tempo. Poderíamos até voltar com o Ministério da Desburocratização. O Brasil é um país complexo em termos de investimentos, de leis para o investimento. Tudo é complicado. Mas estamos vencendo essa parte e vamos conseguir. 
 
DINHEIRO – Mas as coisas estão acontecendo de forma lenta, não?

STEINBRUCHÉ que é demorado. Até a gente se convencer daquilo que a gente é, vai demorar um pouquinho. O Brasil está melhor do que a gente pensa. Nós estamos lentos no sentido de iniciar esse processo de investimentos. Mas não é por mal. É que não estávamos acostumados com esse tipo de situação. 
 
DINHEIRO – Como o sr. vê o Brasil atravessar um processo eleitoral sem turbulências?

STEINBRUCH A gente não está acostumado à normalidade. Teoricamente tem que ser assim sempre. A eleição vem, é um processo normal e democrático, que não pode e não deve afetar a economia.  
 
DINHEIRO – Existe algum risco político no Brasil, como uma onda estatizante?

STEINBRUCHNão, não. É muito difícil o retrocesso. É claro que cada candidato, cada partido, tem o seu perfil, sua filosofia de trabalho. Mas eu não vejo risco algum.   
 
DINHEIRO – E se, no novo governo, mudar a política do BNDES?

STEINBRUCH O BNDES tem de ser desenvolvimentista. Seja tucano, seja petista ou verde. A função do BNDES é essa, em qualquer tipo de governo. Ou seja, o banco precisará continuar na busca contínua do investimento.  
 
DINHEIRO – Qual a sua leitura dessa pressão do Estado sobre as empresas, como no caso da cobrança do governo para que a Vale entre com mais força na siderurgia? 

STEINBRUCH Eu já fui presidente da Vale. A gente tem que entender direito essa pressão. Tem que ver se ocorreu de algum comprometimento que veio de alguma conversa. Tem que ver o que foi conversado entre eles. O governo não estaria cobrando em cima de nada. Eu não conheço as conversas entre eles e não quero julgar. Acho difícil o governo exigir algo aleatório de uma companhia, sem que exista algo por trás.
 
DINHEIRO – Como empresário do setor siderúrgico, o sr. defende que o Brasil continue como grande exportador de commodities ou mais de produtos acabados?

STEINBRUCHQuanto maior valor agregado, melhor. Agora, valor agregado é investimento. E isso não precisa o governo fazer. Se tiverem as condições apropriadas, as empresas investem. O que gostaríamos de ver é um setor produtivo privado bastante investidor e um governo mais legislador, que cobra. 
 
DINHEIRO – O sr. sempre foi muito voltado para as próprias empresas, seja na Vicunha, seja na CSN, e agora tem um papel mais institucional, na Fiesp. O sr. se sente à vontade nesse novo papel?

STEINBRUCH À vontade eu não estou. Estou aprendendo uma coisa que eu nunca tinha feito. Mas eu tenho muita humildade para dizer que eu não sei e quero aprender. É uma coisa diferente. Eu sempre trabalhei para dentro e agora trabalho para fora. Isso requer uma postura diferente. Mas nada que seja impossível.
 
DINHEIRO – Qual é o atual papel da Fiesp no desenvolvimento?

STEINBRUCHTodas as grandes empresas estão representadas na Fiesp. Então nós temos aqui não só as empresas paulistas, nós temos o empresariado nacional.  
 
DINHEIRO – O sr. pretende entrar em causas nacionais, assim como fez Paulo Skaf na briga contra a CPMF?

STEINBRUCH É claro que sim. O que é bom para o Brasil é bom para a Fiesp. Nós temos uma visão nacional, não uma visão paulista. Nós temos um olho olhando o Estado de São Paulo e outro olhando o País.   
 
DINHEIRO – E o Benjamin, tem um olho olhando a CSN e outro a Fiesp?

STEINBRUCH  O Benjamin tem meio período na CSN e, depois, o que precisar na Fiesp. Eu começo todas as manhãs na CSN, falo com todos os diretores da empresa até as 13h30, e sigo para a Fiesp. A CSN é uma empresa muito grande, está com muitos investimentos e precisa de acompanhamento. 
 
DINHEIRO – Qual é o investimento?

STEINBRUCH São R$ 35 bilhões. Nós trabalhamos, basicamente, em cinco áreas: siderurgia, mineração, cimento, infraestrutura e logística e energia. Na área de minério de ferro, estamos saindo de 20 milhões de toneladas ao ano para 110 milhões de toneladas por ano. A ideia é que a empresa seja composta de cinco empresas separadas, cada uma em um setor específico.        
 
DINHEIRO – E todas podem ser levadas ao mercado de capitais?

STEINBRUCH Todas podem ser levadas. Na siderurgia, estamos aumentando a produção em aços longos de 6 milhões para 7,8 milhões de toneladas. Estamos também construindo a ferrovia Transnordestina. Vamos estar em Salgueiro, em Pernambuco, no dia 17, para inaugurar a maior fábrica de dormentes de concreto do mundo. Estamos colocando na obra mil pessoas por mês. 
 
DINHEIRO – Na mineração, o sr. vê algum risco de desnacionalização?  

STEINBRUCH Não é um risco. Está acontecendo. A China comprou a África. E a China está querendo comprar o Brasil. Se deixar, eles compram.
 
DINHEIRO – Então, é preciso avisar o Eike Batista sobre isso. 

STEINBRUCHNa verdade, existem diversos perfis de empresários. O Brasil precisa ser formado por pensadores de médio e longo prazo. E, sob essa ótica, é muito ruim que o Brasil perca ativos importantes para o capital estrangeiro. 
 
DINHEIRO – O governo deveria agir?

STEINBRUCH
Se não tivermos cuidado, podemos acordar da noite para o dia sem algumas joias da coroa.
 
DINHEIRO – A CSN já é uma multinacional, mas teve a oportunidade de ser maior, fazendo aquisições. No entanto, bateu na trave. O sr. se arrepende de algum negócio não feito? 

STEINBRUCH Eu não me arrependo porque fizemos aquilo que era racional. No caso da inglesa Corus, nós tínhamos mais dinheiro para dar o lance. Mas nós paramos onde achamos que devíamos. E um empresário tem a obrigação de ser racional. Eu tinha muita vontade de comprar a Corus. Muita mesmo e foi uma coisa muito frustrante o fato de eu ter parado, mesmo podendo dar mais. 
 
DINHEIRO – Haverá outra chance? 
STEINBRUCH Tentamos várias outras vezes. Mas fomos até o limite da razão.Hoje, continuamos de olho. Uma hora vai dar certo.
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