Os últimos anos de um império chamado Globo

Os últimos anos de um império chamado Globo

Por Renato Rovai, no Blog do Rovai

Há elementos bastante sólidos para se afirmar que as Organizações Globo estão vivendo seus últimos anos de império e que para breve ela será apenas mais um grupo de comunicação no Brasil. A audiência da TV aberta, que é o carro chefe da emissora vem caindo de forma constante há algum tempo.

Além disso, a Globo tem perdido telespectadores tanto para a concorrência como para a Internet. Os jovens já passam mais tempo no computador do que na frente da TV. Além do que, na Internet a Globo é mais uma. Seu portal não é nem o maior do país.

Agora, há dois novos elementos que são pilares fundamentais do poder da Globo que podem torná-la ainda mais fraca nos próximos anos. O primeiro tem relação com a decisão recente do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cadê) que tirou da emissora a preferência pela renovação dos direitos do Campeonato Brasileiro das temporadas de 2012 a 2014.

A Rede Record está em polvorosa com a notícia. E há apostas de que o grupo do bispo pensa em dobrar o valor pago hoje pelos Marinhos, de 500 milhões ano para 1 bilhão.

Se isso vier a acontecer e a emissora paulista, que já venceu a concorrência pela transmissão dos Jogos Olímpicos de 2012, passará a ter a hegemonia da cobertura esportiva. No caso do Campeonato Brasileiro, se a Record vencer mais essa ela passa a ter condições objetivas de derrotar a Globo no horário nobre.

O melhor horário para os jogos da semana é o das 20h, 20h30. Mas por conta do Jornal Nacional e das novelas, a Globo faz com que eles se iniciem cada dia mais tarde. Antes eram 21h15 e agora já estão começando às 22h. Isso diminui consideravelmente o público nos estádios.

A Globo também só transmite um jogo por semana. Se a Record vier a ganhar o Brasileirão, ela vai fazer exatamente ao contrário. Transmitirá os jogos no horário nobre tanto para poder vender publicidades por um preço melhor, quanto para tirar audiência da sua principal concorrente. E empurrar as novelas para segundo lugar no horário.

Além disso, ao invés de transmitir apenas um jogo por semana, vai tentar fazer o maior número possível de partidas. Ou seja, vamos ter jogos nos canais abertos nas quartas e quintas e talvez em até dois horários nesses dias. Algo como o jogo das 19h e o das 21h. Além disso, o campeonato da série B provavelmente vai ser negociado com alguma parceira, como SBT ou a Rede TV pra ser transmitido nas terças e sextas em horários também nobres. E vão arrancar alguns pontinhos das novelas nos outros dias.

Boa parte da audiência e dos lucros da Globo tem relação com o futebol. Ele é uma das galinhas dos ovos de ouro da emissora. É quem paga boa parte das contas. O núcleo de novelas também é o responsável por uma considerável parcela das receitas e da audiência da emissora. Ou seja….

O segundo elemento que pode levar a derrocada da empresa dos Marinhos ser mais rápido do que o imaginado é que pela primeira vez desde 1964 que há indícios claros de ela não vai ser a toda poderosa do Ministério da Comunicação.

Há muitas articulações tanto no meio empresarial, quanto na sociedade civil e na classe política para impedir que novamente o futuro titular da pasta seja pau-mandado do Jardim Botânico.

Um importante dirigente partidário disse a seguinte frase que resume o animo da tropa governista: “Dessa vez eles perderam mesmo. Quando decidiram apoiar radicalmente o Serra fizeram uma opção. Vão ter o direito sagrado de ser oposição, inclusive no ministério da Comunicação”.

Amém!

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Civilização ou barbárie

Civilização ou barbárie

 

Esse é o lema predominante no capitalismo contemporâneo. Universalizado a partir da Europa ocidental, o capitalismo desqualificou a todas outras civilizações como ‘bárbaras”. A ponto que, como denuncia em um livro fundamental, Orientalismo, Edward Said, o Ocidente forjou uma noção de Oriente, que amalgama tudo o que não é Ocidente: mundo árabe, japonês, chinês, indiano, africano, etc. etc. Fizeram Ocidente sinônimo de civilização e Oriente, o resto, idêntico a barbárie.

No cinema, na literatura, nos discursos, civilização é identificada com a civilização da Europa ocidental – a que se acrescentou a dos EUA posteriormente. Brancos, cristãos, anglo-saxões, protestantes – sinônimo de civilizados. Foram o eixo da colonização da periferia, a quem queriam trazer sua “civilização”. Foram colonizadores e imperialistas.

Os EUA se encarregaram de globalizar a visão racista do mundo, através de Hollywood. Os filmes de far west contavam como gesto de civilização as campanhas de extermínio das populações nativas nos EUA, em que o cow boy era chamado de “mocinho” e, automaticamente, os indígenas eram “bandidos, gestos que tiveram em John Wayne o “americano indômito”, na realidade a expressão do massacre das populações originárias.

Os filmes de guerra foram sempre contra outras etnias: asiáticos, árabes, negros, latinos. O país que protagonizou o mais massacre do século passado – a Alemanha nazista -, com o holocausto de judeus, comunistas, ciganos, foi sempre poupada pelos nortemamericanos, porque são iguais a eles – brancos, anglo-saxões, capitalistas, protestantes. O único grande filme sobre o nazismo foi feito pelo britânico Charles Chaplin – O grande ditador -, que teve que sair dos EUA antes mesmo do filme estrear, pelo clima insuportável que criaram contra ele.

Os países que supostamente encarnavam a “civilização” se engalfinharam nas duas guerras mundiais do século XX, pela repartição das colônias – do mundo bárbaro – entre si, em selvagens guerras interimperialistas.

Essa ideologia foi importada pela direita paulista, aquela que se expressou no “A questão social é questão de polícia”, do Washington Luis – como o FHC, carioca importado pela elite paulista -, derrubada pelo Getúlio e que passou a representar o anti-getulismo na politica brasileira. Tentaram retomar o poder em 1932 – como bem caracterizou o Lula, nada de revolução, um golpe, uma tentativa de contrarrevolução -, perderam e foram sucessivamente derrotados nas eleições de 1945, 1950, 1955. Quando ganharam, foi apelando para uma figura caricata de moralista, Jânio, que não durou meses na presidência.

Aí apelaram aos militares, para implantar sua civilização ao resto do país, a ferro e fogo. Foi o governo por excelência dessa elite. Paz sem povo – como o Serra prometia no campo: paz sem o MST.

Veio a redemocratização e essa direita se travestiu de neoliberal, de apologista da civilização do mercado, aquela em que, quem tem dinheiro tem acesso a bens, quem não tem, fica excluído. O reino do direito contra os direitos para todos.

Essa elite paulista nunca digeriu Getúlio, os direitos dos trabalhadores e seus sindicatos, se considerava a locomotiva do país, que arrastava vagões preguiçosos – como era a ideologia de 1932. Os trabalhadores nordestinos, expulsados dos seus estados pelo domínio dos latifundiários e dos coronéis, foi para construir a riqueza de São Paulo. Humilhados e ofendidos, aqueles “cabeças chatas” foram os heróis do progresso da industrialização paulista. Mas foram sempre discriminados, ridicularizados, excluídos, marginalizados.

Essa “raça” inferior a que aludiu Jorge Bornhausen, são os pobres, os negros, os nordestinos, os indígenas, como na Europa “civilizada” são os trabalhadores imigrantes. Massa que quando fica subordinada a eles, é explorada brutalmente, tornava invisível socialmente.

Mas quando se revela, elege e reelege seus lideres, se liberta dos coronéis, conquista direitos, com o avança da democratização – ai são diabolizadas, espezinhadas, tornadas culpadas pela derrota das elites brancas. Como agora, quando a candidatura da elite supostamente civilizada apelou para as explorações mais obscurantistas, para tentar recuperar o governo, que o povo tomou das suas mãos e entregou para lideres populares.

É que eles são a barbárie. São os que chegaram a estas terras jorrando sangue mediante a exploração das nossas riquezas, a escravidão e o extermínio das populações indígenas. Civilizados são os que governam para todos, que buscam convencer as pessoas com argumentos e propostas, que garantem os direitos de todos, que praticam a democracia. São os que estão construindo uma democracia com alma social – que o Brasil nunca tinha tido nas mãos desses supostos defensores da civilização.

Postado por Emir Sader às 13:30

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IstoÉ: A hipocrisia do aborto (ouça o áudio de Sheila)

IstoÉ: A hipocrisia do aborto (ouça o áudio de Sheila)

A hipocrisia do aborto

da Isto É de 22.10.2010

Teoria e prática de Mônica Serra

Nesta campanha, o casal Mônica e José Serra rompeu a fronteira entre o público e o privado ao dar conotação eleitoreira ao tema do aborto. Quando retirou o procedimento da categoria de saúde pública ou de foro íntimo, o casal abriu um flanco na própria privacidade. Serra vinha condenando de forma sistemática a descriminalização ao aborto. Mônica, por sua vez, havia sido ainda mais incisiva, intrometendo-se no assunto durante uma carreata com o marido em Duque de Caxias (RJ): “Ela (Dilma) é a favor de matar as criancinhas”, disse a um ambulante que apoiava a candidata do PT. Não demorou para que o relato de um aborto feito por Mônica quando Serra vivia exilado no Chile virasse assunto público. O caso foi trazido à tona pela bailarina e coreógrafa Sheila Canevacci Ribeiro, 38 anos, ex-aluna de Mônica no curso de dança da Universidade de Campinas.

Ao lado do marido, o antropólogo italiano Massimo Canevacci, Sheila assistia em sua casa a um debate entre os presidenciáveis quando Dilma Rousseff questionou Serra sobre ataques feito por Mônica. Surpreendida, Sheila se lembrou em detalhes de uma aula de psicologia ministrada em 1992 por Mônica para a sua turma na Unicamp. Ao discorrer sobre como os traumas da vida alteram os movimentos do corpo e se refletem no cotidiano, Mônica contara ao pequeno grupo de alunas do curso de dança que ficara marcada por um aborto que precisou fazer na época da ditadura, devido às condições políticas adversas em que vivia. “Fiquei assustada com o duplo discurso de minha professora”, afirma Sheila, que na manhã seguinte colocou uma reflexão sobre o assunto em sua página na rede social Facebook.

A coreógrafa acreditava estar compartilhando a experiência com um grupo de amigos, mas o texto se espalhou, ganhou as páginas dos jornais e até uma nota oficial da campanha de Serra negando o aborto. Já Mônica e Serra não fizeram qualquer desmentido sobre o caso. Na sequência, Sheila recebeu milhares de apoios, mas também críticas, incluindo a de ter traído sua antiga professora. “Foi ela quem traiu minha confiança como aluna e mulher”, diz a coreógrafa. “Ela não é a mulher do padeiro, do dentista. Ela é a mulher de um candidato a presidente da República. O que ela fala e faz conta”.

As atitudes das personalidades públicas contam tanto que chegam a provocar temor. Colega de classe de Sheila, a professora de dança C.N.X., 36 anos, também se lembra do depoimento de Mônica na universidade, mas pede para não ser identificada. Recém-aprovada em concurso de uma instituição federal, ela acredita que, se eleito presidente, Serra pode prejudicar sua carreira. Quanto à aula de 1992, C.N.X. conta que o grupo de alunas não chegava a dez e estava sentado em círculo quando Mônica comentou que um dos fatores que tinham alterado sua “corporalidade” foi a vivência na ditadura e a necessidade de fazer o aborto. “Ela queria ter o filho, não queria ter tirado”, diz a professora de dança. “E eu fiquei muito chocada com o depoimento, pois na época era muito bobinha”, completa C.N.X., que passara no vestibular com apenas 16 anos e pela primeira vez vivia longe da família.

Na opinião da professora de dança, nada impede que, de 1992 para cá, Mônica tenha mudado de ideia: “Mas ela não pode ser hipócrita. Sabe que o aborto é uma experiência traumática”. Trata-se também de um tabu no País, embora 5,3 milhões de brasileiras entre 18 e 39 anos tenham feito pelo menos um aborto, de acordo com o Ministério da Saúde. Mais da metade das brasileiras que se submete ao procedimento acaba internada devido a complicações da intervenção. Como se não bastasse, pode ser condenada a pena de um a três anos de detenção, como prevê o Código Penal de 1940, exceto para os casos de estupro ou de risco de morte da mãe. A mudança dessa lei — ISTOÉ defende a descriminalização do aborto — pode ser o primeiro passo para acabar com a hipocrisia e transformar a interrupção da gravidez em uma questão de saúde pública e de foro íntimo.

PS do Viomundo: Ouça abaixo trecho do áudio da entrevista de Sheila Ribeiro a Conceição Lemes, cuja íntegra em texto está aqui.

fonte : http://www.viomundo.com.br/denuncias/istoe-a-hipocrisia-do-aborto-ouca-o-audio-de-sheila.html

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“O dia em que até a Globo vaiou Ali Kamel”

Passava das 9 da noite dessa quinta-feira e, como acontece quando o “Jornal Nacional” traz matérias importantes sobre temas políticos, a redação da Globo em São Paulo parou para acompanhar nos monitores a “reportagem” sobre o episódio das “bolinhas” na cabeça de Serra.

A imensa maioria dos jornalistas da Globo-SP (como costuma acontecer em episódios assim) não tinha a menor idéia sobre o teor da reportagem, que tinha sido editada no Rio, com um único objetivo: mostrar que Serra fora, sim, agredido de forma violenta por um grupo de “petistas furiosos” no bairro carioca de Campo Grande.

Na quarta-feira, Globo e Serra tinham sido lançados ao ridículo, porque falaram numa agressão séria – enquanto Record e SBT mostraram que o tucano fora atingido por uma singela bolinha de papel. Aqui, no blog do Azenha. você compara as reportagens das três emissora na quarta-feira. No twitter, Serra virou “Rojas”. Além de Record e SBT, Globo e  Serra tiveram o incômodo de ver o presidente Lula dizer que Serra agira feito o Rojas (goleiro chileno que simulou ferimento durante um jogo no Maracanã).

Ali Kamel não podia levar esse desaforo pra casa. Por isso, na quinta-feira, preparou um “VT especial” – um exemplar típico do jornalismo kameliano. Sete minutos no ar, para “provar” que a bolinha de papel era só parte da história. Teria havido outra “agressão”. Faltou só localizar o Lee Osvald de Campo Grande. O “JN” contorceu-se, estrebuchou para provar a tese de Kamel e Serra. Os editores fizeram todo o possível para cumprir a demanda kameliana. mas o telespectador seguiu sem ver claramente o “outro objeto” que teria atingido o tucano. Serra pode até ter sido atingido 2, 3, 4, 50 vezes. Só que a imagem da Globo de Kamel não permite tirar essa conclusão.

Aliás, vários internautas (como Marcelo Zelic, em ótimo vídeo postado aqui no Escrevinhador) mostraram que a sequência de imagens – quadro a quadro – não evidencia a trajetória do “objeto” rumo à careca lustrosa de Serra.

Mas Ali Kamel precisava comprovar sua tese. E foi buscar um velho conhecido (dele), o peritoRicardo Molina.

Quando o perito apresentou sua “tese” no ar, a imensa redação da Globo de São Paulo – que acompanhava a “reportagem” em silêncio – desmanchou-se num enorme uhhhhhhhhhhh! Mistura de vaia e suspiro coletivo de incredulidade.

Boas fontes – que mantenho na Globo – contam-me que o constrangimento foi tão grande que um dos chefes de redação da sucursal paulista preferiu fechar a persiana do “aquário” (aquelas salas envidraçadas típicas de grandes corporações) de onde acompanhou a reação dos jornalistas. O chefe preferiu não ver.

A vaia dos jornalistas, contam-me, não vinha só de eleitores da Dilma. Há muita gente que vota em Serra na Globo, mas que sentiu vergonha diante do contorcionismo do  “JN”, a serviço de Serra e de Kamel.

Terminado o telejornal, os editores do “JN” em São Paulo recolheram suas coisas, e abandonaram a redação em silêncio – cabisbaixos alguns deles.

Sexta pela manhã, a operação kameliana ainda causava estragos na Globo de São Paulo. Uma jornalista com muitos anos na casa dizia aos colegas: “sinto vergonha de ser jornalista, sinto vergonha de trabalhar aqui”.

Serra e Kamel não sentiram vergonha.

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Filósofo e professor da USP faz uma análise do segundo turno e de questões como legalização do aborto e crença em Deus

20 de Outubro de 2010
Entrevista com Renato Janine Ribeiro
Filósofo e professor da USP faz uma análise do segundo turno e de questões como legalização do aborto e crença em Deus

http://diplomatique.uol.com.br/multimidia.php?id=16

 
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Desconstrução do preconceito

Desconstrução do preconceito

Mauricio Dias 23 de outubro de 2010 às 12:48h

Não resulta do Bolsa Família o voto nordestino pró-Dilma, ainda maior no segundo turno

Para entender melhor o resultado do primeiro turno da eleição presidencial e projetar o resultado final do confronto entre Dilma e Serra, no dia 31 de outubro, é preciso falar do velho preconceito contra o Nordeste plantado nos corações e mentes de parte da elite das regiões Sul e Sudeste. O “Sul Maravilha”, conforme batismo do cartunista Henfil, um ícone do petismo aguerrido e ortodoxo.
Para esse pessoal, o voto no Nordeste foi comprado pelo Bolsa Família. Ninguém oferece uma contribuição melhor para a compreensão dessa questão do que a professora Tânia Bacelar, da Universidade Federal de Pernambuco.
Os argumentos dela não se sustentam no compromisso político. Ela mostra que os beneficiários do Bolsa Família “não são suficientemente numerosos para responder pelos porcentuais elevados obtidos por Dilma no primeiro turno: mais de dois terços dos votos no Maranhão, Piauí e Ceará e mais de 50% nos demais estados e cerca de 60% do total”.
Há fatos gerados pela administração Lula que explicam os votos: essa região, assim como o Norte, liderou as vendas do comércio varejista no Brasil entre 2003 e 2009. A consequência, segundo Tânia Bacelar, foi o dinamismo do consumo que “atraiu investimentos para a região”.
“Redes de supermercados, grandes magazines e indústrias alimentares e de bebidas, entre outros, expandiram sua presença no Nordeste ao mesmo tempo que as pequenas e médias empresas locais ampliavam sua produção”, explica.
O longo e importante braço da Petrobras influiu na dinâmica da economia nordestina. Houve investimento em novas refinarias e o resgate da indústria naval, que levou para aquela região vários estaleiros.
Tânia Bacelar fala, também, da “ampliação dos investimentos em infraestrutura, promovida pelo PAC com recursos que, somados, têm peso no total dos investimentos previstos superior à participação do Nordeste na economia nacional”.

Lula, segundo ela, quebrou o mito de que “a agricultura familiar era inviável”. Entre 2002 e 2010, o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) sextuplicou os investimentos e, somado a outros instrumentos (Seguro-Safra e Programa de Compra de Alimentos, entre outros), passou a gerar três em cada quatro empregos rurais do País. O Nordeste abriga 43% da população economicamente ativa do setor agrícola brasileiro.
O resultado disso é registrado pela professora Tânia: “O Nordeste liderou o crescimento do emprego formal no País com 5,9% ao ano entre 2003 e 2009, taxa superior à de 5,4% registrada para o Brasil como um todo, e aos 5,2% do Sudeste, segundo dados da Rais”. E é no Nordeste onde houve também a maior redução da pobreza extrema (tabela).
Dilma obteve média de 65% dos votos nos nove estados nordestinos no primeiro turno. Esse porcentual nas pesquisas do segundo turno subiu para 71%. Sondagem do Ibope realizada no glorioso estado do Piauí retrata isso. No primeiro turno, a candidata petista alcançou um pouco mais de 60% dos votos. Agora deu um salto. No dia 15 de outubro, o Ibope registrou 70% das intenções de voto nela entre os piauienses. Isso pode prenunciar um massacre eleitoral.
“Esse não é o voto da submissão, da desinformação ou da ignorância. É o voto da autoconfiança recuperada e da esperança na consolidação dos avanços alcançados”, afirma Bacelar.
O Nordeste não trocou o voto pelo miolo do pão.

Mauricio Dias

Maurício Dias é jornalista, editor especial e colunista da edição impressa de CartaCapital. A versão completa de sua coluna é publicada semanalmente na revista. mauriciodias@cartacapital.com.br

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Benjamin Steinbruch, presidente da Fiesp e da CSN

Benjamin Steinbruch, presidente da Fiesp e da CSN

“Os empresários ainda não enxergam o novo Brasil”Ainda garoto, antes mesmo de completar 18 anos, Benjamin Steinbruch deu os primeiros passos na vida empresarial, atuando ao lado do pai, o lendário Mendel Steinbruch, do grupo Vicunha.

Por Leonardo Attuch e Hugo Cilo

“Eu mais atrapalhava do que trabalhava”, diz ele. Quarenta anos depois, já dono da Companhia Siderúrgica Nacional e no exercício da presidência da Federação das Indústrias de São Paulo, Benjamin afirma que o momento da economia brasileira é inédito. 

Tão inédito que nunca foi vivido por nenhum empresário nacional. Ele aposta que o Brasil já decolou para um longo ciclo de desenvolvimento, que pode durar várias décadas. 

Nesta entrevista, ele também falou do plano de dividir a CSN em cinco novas empresas, que podem ter ações na BM&FBovespa. E alertou para o risco de desnacionalização de setores estratégicos da economia, como a mineração. Leia a seguir:
Em vídeo, Steinbruch dá mais detalhes sobre suas apostas para o Brasil

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 DINHEIRO – Como o sr. enxerga a economia brasileira? 

BENJAMIN STEINBRUCH O momento é excepcional, com uma convergência de fatores positivos internos e externos. Do ponto de vista externo, o Brasil lucra por ser um grande produtor de matérias-primas, com a China comprando tudo o que se produz no mundo. Em relação ao mercado interno, com a inclusão de 30 milhões de consumidores que vieram da pobreza, junto com 20 milhões de pessoas assistidas por programas sociais, formamos uma massa de consumidores que equivale a uma Espanha ou seis vezes Portugal. Essa gente entrou no mercado comprando seu primeiro bem. A primeira geladeira, o primeiro carro, a primeira televisão. E o crédito fez uma espiral positiva na economia. Mais consumo, mais emprego, mais renda e, de novo, mais consumo. 
 
DINHEIRO – Uma situação inédita?

STEINBRUCHO Brasil se equilibrou pela primeira vez em torno de si mesmo. Eu nunca tinha visto o Brasil se viabilizar para si e não para terceiros. Não para a exportação ou em função de financiamentos do Fundo Monetário Internacional ou do Banco Mundial. Foi um movimento contrário. Hoje, o País é o primeiro a comparecer como doador do FMI.
 
DINHEIRO – O sr. enxerga algum risco? 

STEINBRUCH Não. O Brasil é um dos poucos países hoje que podem pretender se viabilizar economicamente no médio e longo prazo. É claro que vai depender da gente. Mas acho que está tudo sendo feito para que atinjamos o objetivo.
 
DINHEIRO – A taxa de juros ainda não é uma distorção? Especialmente agora que se constata que a inflação continua baixa?

STEINBRUCHEu critico a política de juros há muito tempo. Claro que todos nós queremos ter a inflação controlada. Por outro lado, temos que ter um pouco mais de ousadia e coragem. O Brasil nada mais é que um povo ávido por consumo, numa situação de equilíbrio macroeconômico. Devíamos dar a chance de o Brasil crescer um pouco mais. 
 
 
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“A China já comprou a África e agora quer o Brasil. É preciso ter cuidado”
Hu Jintao, presidente da China
 
 
DINHEIRO – Por que isso não acontece?

STEINBRUCHOlha, essa é a primeira vez que a minha geração tem a possibilidade de saber o que é crescimento. Hoje, tenho 57 anos. E comecei a trabalhar com meu pai antes mesmo dos 18 anos. Nunca vi um cenário como o atual.
 
DINHEIRO – O crescimento no Brasil pode durar dez ou 20 anos?

STEINBRUCHSim. A gente tem todas as condições para isso. Se nós vamos aproveitar ou não, não sabemos. Sempre ouvi que o Brasil era o país do futuro. Isso é passado. Hoje, o Brasil é o país do presente. Não tem como dizer o contrário. Está todo mundo vindo para cá. Todo mundo querendo investir. Só que muitos empresários brasileiros ainda não acordaram para a dimensão do novo Brasil.
 
DINHEIRO – O nível de câmbio atual é um problema?

STEINBRUCHA gente tem que tomar cuidado. Todos sabem da dificuldade de se exportar com um câmbio valorizado. O País está se alijando das exportações e facilitando muito a importação. E, como o Brasil tem um mercado interno forte, as empresas de fora jogam aqui todos os seus excessos de produto, o que pode desestruturar todo o nosso setor produtivo.
 
DINHEIRO – Mas mexer na política de câmbio não seria ruim para a imagem do Brasil?

STEINBRUCH Não é preciso mexer no câmbio. Se baixássemos os juros, muito provavelmente a moeda se desvalorizaria. Existem dois tipos de capital: o especulativo, que busca rendimento de curto prazo, e o de investimento, que gera emprego. Esse último, não tem problema. Pode deixar entrar à vontade. O outro é problemático.
 
DINHEIRO – O real forte não ajuda a combater a inflação?

STEINBRUCHNão há esse risco. Com o excesso de oferta e a ociosidade que existe no mundo, a qualquer momento se importa qualquer coisa.
 
 
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“A CSN pode ser dividida em cinco novas empresas”
Usina da CSN
 
 
DINHEIRO – Como o sr. vê os gargalos da indústria? 

STEINBRUCH A indústria ainda não está no limite. Não temos nenhum setor que atingiu a plena capacidade.
 
DINHEIRO – O nível de investimento atual é adequado para a economia brasileira?

STEINBRUCH O País vai ter que investir mais. Nós, empresários, ainda não temos a exata noção do que é o novo Brasil. Ainda não aprendemos a conviver com essa situação de forte crescimento. Somos novatos nesse tipo de economia. E precisamos de investimentos massivos em todas as áreas.
 
DINHEIRO – E o papel do BNDES, que tem sofrido tantas críticas?

STEINBRUCH O Brasil, para ser forte, para ser líder e para ser como a gente gostaria que fosse, precisa ter empresas fortes. Para ter empresas fortes, nós precisamos ter o suporte do governo. Conversei isso com o presidente Lula e temos o mesmo pensamento. Nesse sentido, o BNDES tem sido fundamental para a internacionalização das empresas e o Luciano Coutinho só merece aplausos pelo trabalho que tem feito.
 
DINHEIRO – Tem havido repasses muito grandes do Tesouro ao BNDES, um dinheiro que, de certa forma, é subsidiado. Há favorecimento excessivo?

STEINBRUCHO setor empresarial tem que ser favorecido, para  que as empresas possam concorrer em situação igual. Hoje, em nível internacional, o investimento no Brasil é caro. Os juros aqui são desproporcionais. Eu não teria vergonha em falar de subsídio para investimento. Mesmo porque é uma necessidade. O investimento traz emprego e renda. Então, a gente tem que cultivar o investimento. E o BNDES é a instituição que tem esse papel. Tudo o que for feito para atrair investimento, a gente tem que cultivar, não criticar. Na verdade, hoje só o BNDES está fazendo isso. Em outros países, há vários bancos que exercem esse papel. 
 
DINHEIRO – Talvez se a taxa de juros fosse menor, o papel do BNDES não fosse tão relevante, concorda?

STEINBRUCHExiste uma distorção do custo financeiro aqui, tanto de capital de giro quanto de investimento. O governo, então, deve favorecer o investimento com os instrumentos que possui. 
 
 
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“O Brasil incluiu 50 milhões de pessoas no mercado de consumo. É uma Espanha”
Consumidores das classes C e D no Brasil
 
 
DINHEIRO – Mas não existe um custo fiscal com essa taxa de juros subsidiada? 

STEINBRUCH Não existe custo fiscal. É investimento. Custo fiscal é o que tem sido feito na Europa e nos EUA para levantar a economia. Isso é custo fiscal. Aqui, é estímulo ao crescimento. 
 
DINHEIRO – E a infraestrutura? Vai dar tempo de fazer todos os investimentos necessários antes da Copa e da Rio-2016?

STEINBRUCH O Brasil é um país fantástico e há tudo por fazer. Onde você olha, tem necessidade de investimento. Isso é ótimo. Na Europa e nos Estados Unidos, já não há onde colocar o dinheiro. Acho que conseguiremos fazer tudo a tempo. Ainda sofremos com a questão da burocracia, que é uma coisa que vem de muito tempo. Poderíamos até voltar com o Ministério da Desburocratização. O Brasil é um país complexo em termos de investimentos, de leis para o investimento. Tudo é complicado. Mas estamos vencendo essa parte e vamos conseguir. 
 
DINHEIRO – Mas as coisas estão acontecendo de forma lenta, não?

STEINBRUCHÉ que é demorado. Até a gente se convencer daquilo que a gente é, vai demorar um pouquinho. O Brasil está melhor do que a gente pensa. Nós estamos lentos no sentido de iniciar esse processo de investimentos. Mas não é por mal. É que não estávamos acostumados com esse tipo de situação. 
 
DINHEIRO – Como o sr. vê o Brasil atravessar um processo eleitoral sem turbulências?

STEINBRUCH A gente não está acostumado à normalidade. Teoricamente tem que ser assim sempre. A eleição vem, é um processo normal e democrático, que não pode e não deve afetar a economia.  
 
DINHEIRO – Existe algum risco político no Brasil, como uma onda estatizante?

STEINBRUCHNão, não. É muito difícil o retrocesso. É claro que cada candidato, cada partido, tem o seu perfil, sua filosofia de trabalho. Mas eu não vejo risco algum.   
 
DINHEIRO – E se, no novo governo, mudar a política do BNDES?

STEINBRUCH O BNDES tem de ser desenvolvimentista. Seja tucano, seja petista ou verde. A função do BNDES é essa, em qualquer tipo de governo. Ou seja, o banco precisará continuar na busca contínua do investimento.  
 
DINHEIRO – Qual a sua leitura dessa pressão do Estado sobre as empresas, como no caso da cobrança do governo para que a Vale entre com mais força na siderurgia? 

STEINBRUCH Eu já fui presidente da Vale. A gente tem que entender direito essa pressão. Tem que ver se ocorreu de algum comprometimento que veio de alguma conversa. Tem que ver o que foi conversado entre eles. O governo não estaria cobrando em cima de nada. Eu não conheço as conversas entre eles e não quero julgar. Acho difícil o governo exigir algo aleatório de uma companhia, sem que exista algo por trás.
 
DINHEIRO – Como empresário do setor siderúrgico, o sr. defende que o Brasil continue como grande exportador de commodities ou mais de produtos acabados?

STEINBRUCHQuanto maior valor agregado, melhor. Agora, valor agregado é investimento. E isso não precisa o governo fazer. Se tiverem as condições apropriadas, as empresas investem. O que gostaríamos de ver é um setor produtivo privado bastante investidor e um governo mais legislador, que cobra. 
 
DINHEIRO – O sr. sempre foi muito voltado para as próprias empresas, seja na Vicunha, seja na CSN, e agora tem um papel mais institucional, na Fiesp. O sr. se sente à vontade nesse novo papel?

STEINBRUCH À vontade eu não estou. Estou aprendendo uma coisa que eu nunca tinha feito. Mas eu tenho muita humildade para dizer que eu não sei e quero aprender. É uma coisa diferente. Eu sempre trabalhei para dentro e agora trabalho para fora. Isso requer uma postura diferente. Mas nada que seja impossível.
 
DINHEIRO – Qual é o atual papel da Fiesp no desenvolvimento?

STEINBRUCHTodas as grandes empresas estão representadas na Fiesp. Então nós temos aqui não só as empresas paulistas, nós temos o empresariado nacional.  
 
DINHEIRO – O sr. pretende entrar em causas nacionais, assim como fez Paulo Skaf na briga contra a CPMF?

STEINBRUCH É claro que sim. O que é bom para o Brasil é bom para a Fiesp. Nós temos uma visão nacional, não uma visão paulista. Nós temos um olho olhando o Estado de São Paulo e outro olhando o País.   
 
DINHEIRO – E o Benjamin, tem um olho olhando a CSN e outro a Fiesp?

STEINBRUCH  O Benjamin tem meio período na CSN e, depois, o que precisar na Fiesp. Eu começo todas as manhãs na CSN, falo com todos os diretores da empresa até as 13h30, e sigo para a Fiesp. A CSN é uma empresa muito grande, está com muitos investimentos e precisa de acompanhamento. 
 
DINHEIRO – Qual é o investimento?

STEINBRUCH São R$ 35 bilhões. Nós trabalhamos, basicamente, em cinco áreas: siderurgia, mineração, cimento, infraestrutura e logística e energia. Na área de minério de ferro, estamos saindo de 20 milhões de toneladas ao ano para 110 milhões de toneladas por ano. A ideia é que a empresa seja composta de cinco empresas separadas, cada uma em um setor específico.        
 
DINHEIRO – E todas podem ser levadas ao mercado de capitais?

STEINBRUCH Todas podem ser levadas. Na siderurgia, estamos aumentando a produção em aços longos de 6 milhões para 7,8 milhões de toneladas. Estamos também construindo a ferrovia Transnordestina. Vamos estar em Salgueiro, em Pernambuco, no dia 17, para inaugurar a maior fábrica de dormentes de concreto do mundo. Estamos colocando na obra mil pessoas por mês. 
 
DINHEIRO – Na mineração, o sr. vê algum risco de desnacionalização?  

STEINBRUCH Não é um risco. Está acontecendo. A China comprou a África. E a China está querendo comprar o Brasil. Se deixar, eles compram.
 
DINHEIRO – Então, é preciso avisar o Eike Batista sobre isso. 

STEINBRUCHNa verdade, existem diversos perfis de empresários. O Brasil precisa ser formado por pensadores de médio e longo prazo. E, sob essa ótica, é muito ruim que o Brasil perca ativos importantes para o capital estrangeiro. 
 
DINHEIRO – O governo deveria agir?

STEINBRUCH
Se não tivermos cuidado, podemos acordar da noite para o dia sem algumas joias da coroa.
 
DINHEIRO – A CSN já é uma multinacional, mas teve a oportunidade de ser maior, fazendo aquisições. No entanto, bateu na trave. O sr. se arrepende de algum negócio não feito? 

STEINBRUCH Eu não me arrependo porque fizemos aquilo que era racional. No caso da inglesa Corus, nós tínhamos mais dinheiro para dar o lance. Mas nós paramos onde achamos que devíamos. E um empresário tem a obrigação de ser racional. Eu tinha muita vontade de comprar a Corus. Muita mesmo e foi uma coisa muito frustrante o fato de eu ter parado, mesmo podendo dar mais. 
 
DINHEIRO – Haverá outra chance? 
STEINBRUCH Tentamos várias outras vezes. Mas fomos até o limite da razão.Hoje, continuamos de olho. Uma hora vai dar certo.
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